Os Que Lutam

Críticas

102 textos

CríticaMárcio Boaro

INFÂNCIA – Graciliano Ramos em cena

Resenha concentrada em atuação, dispositivo narrativo e arquitetura sonora. Optar por Graciliano Ramos – e, mais precisamente, por Infância – é um gesto de coragem. Não se trata de prosa que “ajuda” a cena: é escrita elíptica, seca, antiespetacular, na qual o essencial vibra no fora de campo. É nesse terreno, onde tantos atores escorregariam para a declamação vazia ou a ilustração pueril, que Ney Piacentini encontra navegação. Sua voz projeta imagens: ela não “mostra”, lança quadros nítidos dent

CríticaMárcio Boaro

O atual e necessário “São Paulo Surrealista”

por Márcio Boaro, para Os que lutam Em tempos de autoritarismo recrudescente, quando a opressão se veste de normalidade e o pensamento crítico é silenciado, São Paulo Surrealista, da Cia. Teatro do Incêndio, surge não como mera evocação histórica, mas como ato urgente de desobediência estética. Ao resgatar o DNA incendiário das vanguardas do início do século XX e as imagens libertárias da contracultura dos anos 60, o espetáculo performa um contra-ataque simbólico ao presente asfixiante. Sua forç

CríticaJoão Alves

MARIO NEGREIRO: MACUNAÍMA DO CENTRO À PERIFERIA

Anderson Negreiro leva Macunaíma e o público para dar uma volta na periferia da Zona Norte de São Paulo. por João Alves Em Mario Negreiro: da modernidade à barroca, próximo a efeméride de 100 anos da publicação da obra clássica de Mario de Andrade, Anderson Negreiro que assina atuação, dramaturgia e direção da peça, faz uma importante revisitação à fábula de Macunaíma, um processo de re-antropofagia necessária para a nossa (re)existência em Pindorama.  O prólogo da peça assume a estética da conv

CríticaMárcio Boaro

COURO DURO: A SAGA DO FIM DO MUNDO

Grupo Redimunho celebra 20 anos com um teatro inventivo, político e profundamente brasileiro por Márcio Boaro A pesquisa teatral é uma das marcas mais consistentes do teatro de grupo paulistano, mas poucos a levam tão a sério — e de forma tão autoral — quanto o Redimunho de Investigação Teatral. Em Couro Duro: A Saga do Fim do Mundo, o coletivo celebra vinte anos de trajetória reafirmando sua fidelidade a um caminho próprio: a construção de uma linguagem cênica singular, profundamente ligada à l

CríticaMárcio Boaro

CANOVACCIO — A consciência cênica de um bufão que não se rende

Resenha publicada em “Os que lutam” por Márcio Boaro “Há os que lutam um dia, e são bons. Há os que lutam muitos dias, e são muito bons. Mas há os que lutam toda a vida, esses são os imprescindíveis.” — Bertolt Brecht Nosso espaço, Os que lutam, nasceu sob o signo desse verso. Ele não é apenas um título ou um gesto de reverência à tradição do teatro épico: é um compromisso. […] Falar de Canovaccio, com Clóvis Gonçalves em cena, portanto, não é apenas um gesto crítico: é um ato de reconhecimento.

CríticaMárcio Boaro

Espião Silenciado: Um Ensaio | Teatro e História

Resenha – Um teatro que escava o passado para iluminar o presente “Espião Silenciado: Um Ensaio” não apenas resgata uma história quase esquecida — a morte misteriosa de um agente duplo às vésperas do golpe de 1964 — como ilumina, com rigor e sensibilidade, um dos aspectos menos debatidos da preparação militar para a tomada de poder: a articulação prévia dos quartéis, o uso estratégico do anticomunismo como tática de desestabilização e, sobretudo, o apoio silencioso e decisivo do governo dos Esta

CríticaMárcio Boaro

Meu nome: Mamãe – A universalidade do gesto íntimo

Resenha por Márcio Boaro Entre causos nordestinos e memória íntima, Aury Porto constrói um gesto de resistência delicada diante da perda. Em diferentes momentos da história recente do teatro e da dança, a força do corpo na construção da narrativa revelou-se com intensidade notável. Em 1997, na montagem de A Resistível Ascensão de Arturo Ui dirigida por Heiner Müller, o ator transmutava-se em cena: surgia como um cão e, lentamente, transformava-se em Hitler, através de uma fisicalidade precisa qu

CríticaMárcio Boaro

Entre o Quadro e o Corpo: Gabriela Duarte em “O Papel de Parede Amarelo e Eu

Divulgação (Foto: Priscila Prade) Em um momento histórico em que o conservadorismo ressurge com força e ousadia, O Papel de Parede Amarelo e Eu se impõe como um gesto necessário. Não apenas por recuperar uma obra fundamental do feminismo literário, mas porque o faz em um Brasil onde vozes religiosas afirmam publicamente que mulheres não devem estudar tanto quanto homens, porque “é a vontade divina que o homem seja o cabeça do casal”. O espetáculo, ao contrário, afirma o oposto: que o corpo e a m

CríticaMárcio Boaro

Restinga de Canudos – A Cocanha Cabocla do Teatro Brasileiro

Logo nos primeiros minutos de Restinga de Canudos, a plateia é convidada a partilhar um enorme cuscuz nordestino com leite de coco. No gesto de servir a comida — fazem uma brincadeira de muito bom tom com a hospitalidade do povo brasileiro, dizendo que foi feita para 14 (o elenco), mas que alimenta com boa vontade 134 (o elenco mais os 120 espectadores) — o espetáculo inaugura sua partilha de sonho: “nos sonhos de Conselheiro, cabia todo mundo.” Esse sonho de uma Cocanha cabocla é posto desde o

CríticaMárcio Boaro

Gente é Gente?! – Quem manda aqui? O Carnaval armado do poder

Análise crítica de “Gente é Gente?!”, livre adaptação de Brecht dirigida por Marco Antonio Rodrigues Gesualdo Brilhante: bondade que vira alvo. Gente é Gente?!, dirigido por Marco Antonio Rodrigues, propõe uma releitura potente de Um Homem é um Homem, de Bertolt Brecht. Mais do que atualizar, a peça desloca com precisão os eixos dramatúrgicos e históricos da obra original para uma conjuntura específica: o Brasil de 2025. E isso não é apenas simbólico. É preciso lembrar que, neste exato momento,

CríticaMárcio Boaro

Uma canção indigesta servida com caldinho de feijão

Resenha do espetáculo Canção Indigesta, do Engenho Teatral Assisti a Canção Indigesta ontem à noite, no Engenho Teatral. E saí de lá como quem atravessa uma tempestade lúcida: com o corpo mexido, o pensamento mobilizado e a sensação de que o teatro — esse que não se rende ao mercado — ainda pulsa como espaço de enfrentamento coletivo. Não é fácil digerir o que é servido em cena. E nem deveria ser. O título da peça já avisa: trata-se de uma canção indigesta. Mas antes mesmo que o espetáculo comec

CríticaMárcio Boaro

Pai contra Mãe ou Você Está me Ouvindo?

Pai contra Mãe ou Você Está me Ouvindo?O Coletivo Negro atualiza Machado de Assis em um espetáculo de força estética e denúncia pungente Em um teatro pulsante de representatividade, Pai contra Mãe ou Você Está me Ouvindo?, espetáculo do Coletivo Negro, nos convida a ouvir — e ver — o que se recusa a desaparecer: as marcas da escravidão na estrutura da sociedade brasileira. Concebida, dirigida e coescrita por Jé Oliveira, a peça parte do conto homônimo de Machado de Assis e propõe um mergulho pro

CríticaMárcio Boaro

Gertrude, Alice e Picasso: ecos da geração perdida para os dias de hoje

Um espetáculo que costura o passado, o presente e a delicadeza do teatro como espaço de reencontro humano Por Márcio Boaro A peça mergulha na atmosfera da chamada “geração perdida”, nome com que esses próprios artistas se identificavam — um grupo de jovens criadores que, vindos de diferentes partes do mundo, se encontraram em Paris no período entre guerras. Eram sobreviventes do fim do século XIX e testemunhas da brutalidade da Primeira Guerra Mundial. Carregavam nos pés o barro do século anteri

CríticaMárcio Boaro

A Memória na Areia: Para Mariela e a Construção do Pertencimento

No coração de uma arena retangular, cercado pelo público de todos os lados, um grande quadrado de areia domina o espaço. Esse elemento cenográfico, ao mesmo tempo lúdico e simbólico, se torna palco de memórias, transforma-se em cidade, em infância e, por fim, em identidade. Assim começa Para Mariela, novo espetáculo do Grupo Sobrevento, em cartaz no Teatro Sobrevento até 30 de março, com entrada gratuita. Inspirado na cultura boliviana e nos relatos das crianças imigrantes da região do Brás e Be

CríticaMárcio Boaro

Muito mais que Um segundo…

Paulo Maeda em Um Segundo (ensaio sobre o tempo) propõe vivermos muito mais do que um segundo de nossas vidas. Ele nos convida para viver duas experiências importantes e praticamente perdidas no século XXI: um encontro de verdade e a possibilidade de mergulhar na humanidade do outro. O convite para a peça vem através de pedido sincero para passar duas horas com esse ator na sala de sua casa, fazendo parte de um pequeno grupo formado por seis pessoas conhecidas ou indicadas por conhecidos. O pról

CríticaMárcio Boaro

A dialética dos Papas em cena

O encontro de duas forças teatrais Assistir a *Dois Papas* no Sesc Guarulhos foi um evento de grande expectativa para mim. Zé Carlos Machado e Celso Frateschi são dois atores que acompanho há décadas e que, além de possuírem um domínio técnico absoluto, trazem ao seu trabalho um compromisso constante com o teatro como espaço de reflexão social. Ambos fazem parte da tradição paulistana de atuação que equilibra o rigor da construção cênica com a fluidez do jogo vivo, e ver essa interação em cena f

CríticaMárcio Boaro

A Rosa Mais Vermelha Desabrocha e a Necessidade do Humor Feminino no Brasil

O humor brasileiro tem raízes profundas no teatro de revista, na chanchada e no rádio, mas sempre girou em torno do protagonismo masculino. As mulheres, quando presentes, costumavam ocupar papéis coadjuvantes, seja como musas ou como objeto da disputa entre os homens. A Rosa Mais Vermelha Desabrocha, inspirada na HQ de Liv Strömquist, rompe com essa lógica ao apresentar um humor ágil e inteligente, conduzido inteiramente por quatro atrizes — Bianca Lopresti, Carolina Splendore, Fernanda Viacava

CríticaMárcio Boaro

Tybyra: uma tragédia indígena contra-colonial

A dramaturgia de estreia do artysta potyguara Juão Nyn, Tybyra – Uma tragédia indígena brasileira com direção de Renato Carrera, nos recorda que a tragédia colonial ainda massacra e que é necessário reagir contra ela. A peça narra a imaginação do autor de como poderia ter sido as impressões e atitudes de Tybyra acerca de sua própria vida, sexualidade, prisão, sentenciamento e execução. Tybyra configura-se  em uma ficção construída a partir do primeiro caso de LGBTfobia documentado em nosso país.

CríticaMárcio Boaro

Serra Pelada – A alquimia entre tempos e masculinidades no palco do Teatro de Arena

O espetáculo Serra Pelada, apresentado no histórico Teatro de Arena, constrói uma narrativa potente e multifacetada, entrelaçando tempos, personagens e conflitos que ressoam até hoje. Em cena, três momentos distintos se sobrepõem em um jogo dramatúrgico engenhoso, costurando a memória política do Brasil com reflexões sobre masculinidade, poder e ambição. A peça inicia com um recorte histórico que atravessa as décadas de 1960 e 1970, passando pela Guerrilha do Araguaia e avançando no tempo até o

CríticaJoão Alves

O Guarani: para além de uma rigidez histórica, a necessidade de rever e reescrever a Ópera

Por João Alves Foi escolha certeira do Theatro Municipal de São Paulo abrir o ano de 2025 com a remontagem da ópera Il Guarary de Carlos Gomes com concepção de Ailton Krenak, direção cênica de Cibele Forjaz e direção musical de Roberto Minczuk. A montagem realiza um grande impacto com relação a ópera em nosso imaginário colonizado brasileiro ao colocar dentro da visualidade da encenação os Guaranis reais em contraponto a ideia romântica de um “herói indígena” ao gosto dos colonizadores. É bom re