Os Que Lutam

Críticas

102 textos

CríticaMárcio Boaro

Hereditária no Sesc Pompeia: hereditariedade não é destino, é campo de disputa

Aos 7 anos, Moira Braga foi diagnosticada com Stargardt, uma doença rara e hereditária recessiva que a levaria à perda progressiva da visão. Para que ela se manifeste, é preciso herdar do pai e da mãe cópias alteradas do mesmo gene — ainda que ninguém da família apresente a doença. Moira e sua irmã mais nova receberam essa herança silenciosa, inscrita no corpo sem aviso prévio. É a partir dessa descoberta que a artista constrói Hereditária, sua primeira criação que tematiza diretamente a deficiê

CríticaMárcio Boaro

O Retorno, de Fredrik Brattberg, em cartaz no Sesc Santana

Quando um milagre atrapalha a rotina Sobre O Retorno (The Returning / Tilbakekomstene), de Fredrik Brattberg Em O Retorno, Fredrik Brattberg constrói uma das dramaturgias mais perturbadoras do teatro contemporâneo ao submeter o luto a um processo de matematização impiedosa. Não se trata de uma peça sobre a dor, mas sobre o cansaço da dor — e, sobretudo, sobre o que acontece quando até o sagrado se torna inconveniente. O fato de Brattberg ser também compositor está longe de ser lateral. Ele é, na

CríticaMárcio Boaro

Quando o ato vira imagem: Medea de Gabriel Villela no Sesc Consolação

Medea, de Sêneca, na encenação de Gabriel Villela: o horror à distância, o mito em tribunal As crianças são retalhos. A palavra é praça pública. E a violência, em vez de explodir em realismo, persiste como prova. As crianças são retalhos. Pequenas figuras de tecido, penduradas em cabides por pregadores, como se a infância — nesse mundo — pudesse ser reduzida a coisa guardada. Quando chega o momento da morte, não há corpo, não há sangue, não há representação realista: há vidros com água, onde aqu

CríticaMárcio Boaro

A culpa é dos javalis: rindo do colapso das masculinidades em espera

Quatro homens num ponto de ônibus no meio do nada, uma espera que não anda e um riso que não alivia: desloca. A Motosserra Perfumada entrega comédia crítica de alta voltagem — teatro na melhor acepção da palavra. Trata-se de uma comédia. Isso é dito na apresentação e reafirmado pelas personagens ao longo do espetáculo. Comigo, esse pacto funciona de maneira especialmente fácil — o que não é comum. O riso vem rápido, mas não se trata de gargalhada solta; é riso de reconhecimento. Aqueles homens s

CríticaMárcio Boaro

Felicidade: leveza como saber de ofício

Confesso uma resistência pessoal às comédias. Não por princípio, mas por experiência: muitas vezes o humor se resolve em facilidades, em cumplicidades rápidas que pouco permanecem depois do riso. Por isso, assistir a Felicidade, em cartaz no Teatro Sérgio Cardoso, foi uma surpresa — e uma surpresa boa. Não apenas porque o espetáculo funciona, mas porque encontra um tipo de humor raro hoje: aquele que nasce do domínio do ofício, da escuta da cena e de uma relação inteligente com a tradição. Há, e

CríticaMárcio Boaro

A Palma: sensibilidade em estado de consumo

Entre o chamado do ofício e a engrenagem do mercado cultural. A Palma trata de uma contradição estrutural que atravessa o teatro moderno e contemporâneo e, de modo particular, a vida de quem escolhe a atuação como ofício. Não se trata de vaidade individual nem de fragilidade subjetiva, mas do choque entre dois campos inconciliáveis: o chamado profundo da atuação — esse lugar onde o sujeito se oferece inteiro ao trabalho, aceita a duplicidade, dilata a própria experiência e encontra sentido no ge

CríticaMárcio Boaro

Hip Hop Hamlet: Tragédia, Linguagem e Disputa de Tradições

Acompanhar a trajetória do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos desde seus primeiros trabalhos é acompanhar a construção histórica de uma linguagem teatral. Não se trata de apropriação pontual do hip hop como ornamento estético, nem de atualização circunstancial para dialogar com “novos públicos”, mas de um projeto continuado, com mais de 25 anos, que construiu um modo de fazer reconhecível, transmissível e politicamente situado — aquilo que hoje pode ser nomeado, sem exagero, como Teatro Hip Hop Pa

CríticaMárcio Boaro

Dolores reafirma sua urgência política com espetáculo sobre a resistência do Sul Global

O Dolores Boca Aberta chega com Debuxo: o olho do mundo, uma nova montagem que confirma sua vocação para o teatro político sem concessões. Com elenco renovado e uma proposta estética ousada, o grupo constrói um espetáculo episódico que entrelaça passado e presente para lembrar — com insistência e método — que certas denúncias não envelhecem: apenas se tornam mais necessárias. E, quando fala em “Sul Global”, o espetáculo não convoca uma geografia passiva: nomeia um sujeito histórico produzido pel

CríticaMárcio Boaro

Morte e Vida Severina — Portinari ao vivo

A frase dita por Adriano Diogo ao fim do espetáculo da Cia. Ensaio Aberto – “parece Portinari ao vivo” – vai além do elogio feliz: é uma chave de leitura. Há, em cena, uma potência plástica e humana que transforma o poema de João Cabral em mural vivo, com corpos que carregam a aridez, o peso histórico e a dignidade ferida de quem sobrevive sob a sombra da “morte severina”. A montagem parte da jornada do retirante, como no quadro de Portinari, mas recusa o regionalismo. Sua força está em universa

CríticaMárcio Boaro

O Filho, de Florian Zeller

Na montagem brasileira dirigida por Leo Stefanini, O Filho aparece menos como “drama burguês de classe média europeia” e mais como um estudo rigoroso sobre a estagnação de um mundo em colapso. A direção demonstra nitidamente que compreende a pulsação do texto: o modo como Leo organiza as cenas faz com que cada entrada, pausa e silêncio responda ao movimento interno da peça, sem tentar embelezar, psicologizar em excesso ou oferecer uma catarse conciliadora que o texto não promete. A opção por man

CríticaMárcio Boaro

“Vocês Não Entenderam Nada” – riso, mercadoria e cancelamento em uma sala de estar | Os que Lutam

Teatro do Incêndio – a partir de A Babá (La Baby-sitter), de René de Obaldia Texto: Márcio Boaro Em “Vocês Não Entenderam Nada”, o Teatro do Incêndio utiliza a obra “A Babá” (La Baby-sitter), de René de Obaldia, como espelho das patologias sociais geradas por uma vida organizada sob o signo da mercadoria. A peça explora o esgarçamento dos laços afetivos, a violência como linguagem e a perseguição do diferente como subprodutos de um cotidiano em que tudo — inclusive a palavra e o afeto — é reduzi

CríticaMárcio Boaro

Armas Milagrosas: Quando a Luz do Palco Revela (e Oculta) a Existência

O drama burguês morreu? Em “Armas Milagrosas”, a branquitude iluminada de Pirandello é confrontada pela poesia de combate de Aimé Césaire e pela insurgência de um elenco negro que se recusa a ficar na coxia. Uma leitura sobre como a luz no palco define quem tem direito a existir.

CríticaMárcio Boaro

Microcosmo do neoliberalismo no palco — Um dia de semana qualquer

Quando a atriz habita a trabalhadora e a precariedade vira forma. Uma atriz em colapso financeiro habita — e não apenas interpreta — a atendente de supermercado; o palco vira microcosmo social onde arte e trabalho precarizado se espelham.  Nos anos 1970, mesmo sob uma ditadura, a cena teatral era ativa, com nove apresentações semanais. Hoje, sem políticas contínuas de formação de plateias, a maioria das temporadas se resume a duas ou três sessões. Essa realidade empurra o trabalho para a intermi

CríticaMárcio Boaro

Macbeth em clave paulistana

A ópera como forma de classe — e espelho de São Paulo Por Márcio Boaro — para Os que lutam Nota de método. Minha área de atuação e escrita é o teatro. Para escrever esta resenha, realizei pesquisa específica sobre ópera — história, convenções e debates críticos — a fim de situar a montagem no seu campo próprio. Uma resenha desta montagem exige mais do que descrever o canto ou a cenografia. Exige desvelar as forças históricas e sociais que a ópera, como forma, carrega. Elisa Ohtake não propõe um

CríticaMárcio Boaro

A carranca sob o verniz: afeto e Estado em Um Dia Muito Especial

Ao entrar no teatro, diante de uma plateia imensa, as primeiras projeções — Hitler e Mussolini saudados com pompa pela população de Roma — cortam o ar com uma atualidade triste. É impossível não ligar essa sensação ao que considero a função da arte: reconhecer o próprio tempo e criar em sincronia com ele. É função da arte — e, portanto, da artista — reconhecer o próprio tempo e criar em sincronia com ele. Dessa premissa, montar Um Dia Muito Especial no teatro brasileiro tem total sentido. A atua

CríticaMárcio Boaro

Por um Pingo

Circo-teatro, suspense e o direito de reconhecer-se em cena Há um gesto claro em Por um Pingo: partir de uma banalidade doméstica — a mancha de mofo que cresce no teto, anunciando o gotejar — e, sem sinais de grandiloquência, convertê-la em alegoria de uma cidade que vaza por dentro. O Teatro Manás organiza esse percurso com dois códigos assumidos: a legibilidade do circo-teatro (tipos, triangulação, precisão do gesto em plano largo) e procedimentos de suspense (o fora-de-campo sonoro, a progres

CríticaMárcio Boaro

O Mercador de Veneza no Tucarena: A Tragédia do Capital na Falsa Comédia de Shakespeare

6 de outubro de 2025 A opção central e mais radical desta montagem é o reposicionamento de Shylock, do status de vilão antissemita para o de protagonista trágico. A montagem compreende o paradoxo: o dramaturgo herda os estereótipos antissemitas da avareza e da implacabilidade, mas injeta neles as contradições de uma personagem que entende as contrações do ambiente em que está inserida. Shylock não é uma caricatura, mas um homem visceralmente marcado pela violência social. Vemos sua dor ao ser cu

CríticaMárcio Boaro

Dois Perdidos Numa Noite Suja — 90 anos de Plínio Marcos em choque vivo

6 de outubro de 2025 Por ocasião dos 90 anos de Plínio Marcos, o Teatro do Incêndio estreou, no dia do aniversário do autor, “Dois Perdidos Numa Noite Suja”. Um dos grandes textos brasileiros dos anos 1960 — e isso num período pródigo em grandes textos —, a peça se impôs como obra de choque e lucidez política. Plínio Marcos de Barros (1935–1999) foi a voz visceral dos marginalizados e um símbolo de resistência artística sob a ditadura. “Autor maldito”, levou ao palco, com violência e ternura, o

CríticaMárcio Boaro

Resenha: “Não me entrego, não!”, o testemunho de um imprescindível

por Márcio Boaro Há perguntas que se abrem como um proscênio e, a partir delas, a cena inteira se organiza. O que pode ser mais gratificante, para alguém que chega aos 92 anos, do que perceber que a própria vida teve sentido público? Que a voz esteve em sintonia com a época, não por docilidade às modas, mas por ter interferido na conversa comum, deslocando percepções, formando plateias, qualificando o espaço compartilhado? É sob essa régua — que vale como ética e como poética — que se assiste a

CríticaMárcio Boaro

LABIRINTHOS 2.5 — o coro como máquina de pensar | Os que lutam

Cia Teatral ENERGÓS • Resenha para o site Os que lutam Há montagens que voltam aos gregos como quem visita um museu; LABIRINTHOS 2.5, da Cia Teatral ENERGÓS, volta como quem reabre uma oficina. O mito do Minotauro reaparece ali não como peça vitrificada, mas como matéria de trabalho: algo que respira na voz, no corpo e na escuta coletiva, exatamente como acontecia antes da fixação escrita, quando as histórias circulavam em estado vivo, rituais que iam se transfigurando a cada repetição. Este tra