Os Que Lutam

Críticas

102 textos

CríticaMárcio Boaro

A auditoria no lugar da justiça: compliance, vigilância e psicopatia corporativa em Nós, os Justos

A Companhia Colateral, no Teatro Itália, transforma uma sindicância corporativa em ensaio sobre a claustrofobia social de um mundo que substituiu a verdade pela conformidade dos discursos. Foto: Ronaldo Gutierrez A sala é real. Mesa, cadeiras de escritório, janela — nenhuma estilização, nenhuma metáfora visual antecipada. Dois homens. Uma sindicância em curso. É nesse espaço sem ambiguidade cenográfica que Nós, os Justos, texto e direção de Kiko Rieser, instala sua armadilha. As duas mulheres en

CríticaMárcio Boaro

Pés-Coração e a cidade reduzida a coordenada -Coletivo Labirinto, no Sesc Pompeia

Em Pés-Coração, o público é convidado a subir ao palco e percorrer, em fila, duas pistas circulares paralelas. A imagem projetada desse deslocamento coletivo desenha na tela o símbolo do infinito, transformando a caminhada partilhada em figura visual antes que em argumento. Há uma aposta clara nessa abertura: a experiência precede a explicação. Não se trata de ilustrar uma tese sobre deslocamento — trata-se de fazer o espectador habitá-lo com o próprio corpo, ainda que numa versão miniaturizada

CríticaMárcio Boaro

Gota d’Água — No Tempo, no Sesc Consolação: a força que não cabe no mundo

Medeia é uma personagem de mais de dois mil e quatrocentos anos. Quando Eurípides a colocou em cena em 431 a.C., fez algo que distingue a tragédia que leva seu nome das demais do período: retirou o destino do centro da ação e colocou no lugar a vontade humana. Medeia não é arrastada pelos fios invisíveis do fado — ela escolhe. É essa escolha, radical e inegociável, que a torna incompatível com qualquer sistema que funcione pela domesticação da vontade em favor do cálculo. O capitalismo é apenas

CríticaMárcio Boaro

Séquana–Yará: A Voz das Águas — Estelar de Teatro

Crítica · Farofa da MIT 2026 A água que testemunha Séquana–Yará: A Voz das Águas — Estelar de Teatro Foto: Cemil Batur Gökçeer Há uma pergunta que Séquana–Yará: A Voz das Águas coloca com precisão incômoda: o que os rios lembram quando as cidades esquecem? Ela não está no programa. Está na arquitetura da cena. O espetáculo da Estelar de Teatro, apresentado em processo na Farofa da MIT — no Teatro Estelar, espaço que a companhia mantém na Rua Treze de Maio desde 2018 —, é resultado de anos de pes

CríticaMárcio Boaro

A Hora do Boi

EspetáculoA Hora do Boi OndeÁgora Teatro — Rua Rui Barbosa 664, Bela Vista, SP Quando6 mar – 26 abr 2026 · sex–dom HoráriosSex e sáb 20h · dom 19h IngressosR$ 100 (inteira) · R$ 50 (meia) Duração / Classif.60 min · 14 anos Zé Ramalho abre o espetáculo. Vida de Gado — canção que não fala de animais, mas de homens tratados como gado — instala de imediato o duplo registro que A Hora do Boi vai sustentar por seus sessenta minutos: o boi é alegoria, e a alegoria é precisa. Não se trata de um espetácu

CríticaMárcio Boaro

O Céu Fora Daquela Janela – Bendita Trupe no SESC

O tribunal como máquina dialética sobre O Céu Fora Daquela Janela, da Bendita Trupe A razão pela qual o drama de tribunal funciona tão bem no palco não é acidental — é estrutural. O julgamento e o teatro compartilham uma arquitetura que precede qualquer escolha do dramaturgo: há um espaço delimitado, um tempo suspenso da vida ordinária, uma divisão entre quem performa e quem julga, e uma decisão que precisa ser tomada ao final. Quando o teatro coloca um tribunal em cena, não está apenas escolhen

CríticaMárcio Boaro

O rádio desligado: razão, guerra e autocolonização em A Última Sessão de Freud

A partir de uma cena aparentemente lateral, a crítica examina como o espetáculo condensa, num gesto mínimo, o embate entre razão, guerra, contenção e experiência sensível. Por Márcio Boaro · Os Que Lutam Texto da crítica A Última Sessão de Freud, de Mark St. Germain, traduzida por Clarisse Abujamra e dirigida por Elias Andreato, chega à sua atual temporada no Teatro Sabesp Frei Caneca com 370 apresentações e mais de 170 mil espectadores acumulados desde 2022. O que sustenta essa longevidade não

CríticaMárcio Boaro

Mas afinal, o que é Liberdade? Parte 1

Liberdade do Py para montar Liberdade, Liberdade Núcleo Py / Companhia Antropofágica Há uma inversão elegante no ponto de partida do Núcleo Py, da Companhia Antropofágica, ao revisitar Liberdade, Liberdade, de Millôr Fernandes e Flávio Rangel. O texto original, de 1965, foi montado por habitantes do Leblon que se passavam por trabalhadores. A nova versão — renomeada Mas afinal, o que é Liberdade? para, segundo o release, lidar com os “modelos de censura vigentes” — inverte o dispositivo: são tra

CríticaMárcio Boaro

Entre irmãos

Os Que Lutam Foto: Heloísa Bortz Crítica · Teatro O pai morre duas vezes Em Entre Irmãos, Otávio Martins, Fernando Pavão e Marcos Damigo transformam trinta anos de ofício numa celebração sem autocomplacência EspetáculoEntre Irmãos Texto e atuaçãoOtávio Martins DireçãoMarcos Damigo Publicado emMarço 2026 Antes de qualquer palavra sobre o conflito entre os dois irmãos, antes de qualquer linha do texto de Otávio Martins ser dita, o espetáculo já tomou uma decisão formal que determina tudo o que vem

CríticaMárcio Boaro

Let’s Play That ou Vamos Brincar Daquilo

Os que Lutam Crítica de teatro · São Paulo Crítica · Solo cênico Tuca Andrada convoca Torquato Neto contra a acomodação do presente Let’s Play That ou Vamos Brincar Daquilo · 2026 Foto: Matheus José Maria Em Let’s Play That ou Vamos Brincar Daquilo, Tuca Andrada não faz de Torquato Neto um santo pop da contracultura nem um nome célebre a ser reverenciado em cena. Faz algo mais difícil e mais justo: recoloca sua obra e sua vida no terreno do conflito. Não para reconstruir uma biografia, mas para

CríticaMárcio Boaro

História da Violência de Édouard Louis

Crítica · MITsp 2026 · Schaubühne Berlin A violência e suas versões: a dramaturgia do ponto de vista Como a adaptação teatral de História da Violência transforma um episódio traumático em investigação sobre narrativa, classe e percepção social História da Violência · Édouard Louis · Dir. Thomas Ostermeier · Schaubühne Berlin · Teatro Liberdade, São Paulo A adaptação teatral de História da Violência, de Édouard Louis, apresentada na programação da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo em um

CríticaMárcio Boaro

Contus d’Fadas pra Kabezas Dialetykas

Os procedimentos de cena do Oficina e a voz que se anuncia: Contus d’Fadas pra Kabezas Dialetykas Teatro Oficina · Direção: Fabiana Serroni · Kafka em engrenagem cênica Existe um conjunto de procedimentos de cena no Teatro Oficina. Não é um conjunto de regras escritas — é algo que está nas paredes, no palco inclinado que força o corpo a um desequilíbrio permanente, na passarela que corta a plateia e dissolve a fronteira entre quem age e quem assiste, nas escadas que sobem para fora do campo visu

CríticaMárcio Boaro

Agropeça

O estilhaçamento da nostalgia: do mito infantil à máquina de poder do agronegócio Em 1992, na Igreja Santa Ifigênia, eu assisti ao primeiro espetáculo do Teatro da Vertigem. O Paraíso Perdido me causou um assombro que ainda carrego, mesmo passadas mais de três décadas, como régua estética: um modo de reconhecer quando uma obra não está ali para agradar, e sim para deslocar. Ao entrar na arena de rodeio montada no Espaço Cultural Elza Soares para ver Agropeça, percebo que a vitalidade do grupo co

CríticaMárcio Boaro

CHOQUE! Procurando Sinais de Vida Inteligente

A Doce Arquitetura do Delírio Quando assisto a um espetáculo que trata sobre o que, para meus olhos, aparenta ser sofrimento psíquico, logo penso que não tenho formação em psicologia, nem sou psicoterapeuta; então não me cabe dar nome clínico ao que vejo. Escrevo sobre teatro porque vivo nessas águas há anos. No baque das ondas contra o meu batel, o marinheiro se faz. Não há nada de preciso nelas — e, mesmo assim, sigo: para mim, é sempre preciso. Posto isso, escrevo sobre o espetáculo CHOQUE! P

CríticaMárcio Boaro

A dramaturgia visual e o pensamento cênico em Projeto Wislawa, no Teatro Paulo Eiró

Em Projeto Wislawa, escrito e dirigido por Cesar Ribeiro, o palco se apresenta como construção desde o primeiro minuto. As atrizes se anunciam com seus nomes. Ao fundo, durante toda a apresentação, luz e som ficam visíveis: os operadores trabalham à vista, e o diretor permanece centralizado entre eles — não "apresentados" como personagens, mas ali, em sua função, de forma clara. Não é detalhe. Muda a qualidade do olhar. O que se vê não pede ilusão; pede leitura. Essa decisão atravessa todo o esp

CríticaMárcio Boaro

Asas de Pano — a memória como dramaturgia do impossível

Em Asas de Pano, o conflito doméstico não é tratado como “tema” — é tratado como dispositivo de pressão. A peça parte de uma situação reconhecível (uma reorganização familiar diante da autonomia de uma filha) para produzir algo mais raro: um mecanismo em que forma e conteúdo se tornam inseparáveis. O que se desestabiliza em cena não é apenas uma relação: é um sistema inteiro de vida, mantido em pé por controle, silêncio e manutenção. A decisão formal mais potente é transformar a memória em ação.

CríticaMárcio Boaro

A Escuta Como Gesto Dramatúrgico: Somos Periferia no Sesc Belenzinho

A Escuta Como Gesto Dramatúrgico: SOMOS PERIFERIA Fotos: Max Di Giosia / Circo Teatro Palombar Somos Periferia, do Circo Teatro Palombar, transforma circo, música e poesia slam em um manifesto cênico feito por quem vive o território. O Palombar tem um trabalho consolidado de Circo Teatro, mas para este espetáculo entendeu que era o momento de deixar o circo falar por si — o caminho era ouvir aqueles jovens e traduzi-los na linguagem circense. O Palombar, coletivo nascido e atuante na Cidade Tira

CríticaMárcio Boaro

Entre a Cruz e os Canibais: comédia farsesca desmonta o mito bandeirante

Há espetáculos que se anunciam como “históricos” e, no fundo, apenas vestem o passado com figurino de época; e há outros que usam o passado como máquina de desnaturalização do presente. Entre a Cruz e os Canibais, de Marcos Damigo, pertence à segunda linhagem: a do teatro que decide não “recontar” a história, mas mexer na engrenagem das versões oficiais — sobretudo quando essas versões ainda operam como cimento simbólico de uma cidade e de uma classe dirigente. O espetáculo se inscreve, ao mesmo