Betrayal, de Harold Pinter, no Teatro UOL: crítica
uma anatomia da intimidade, da mentira e do pacto entre homens
81 textos
uma anatomia da intimidade, da mentira e do pacto entre homens
A Companhia Colateral, no Teatro Itália, transforma uma sindicância corporativa em ensaio sobre a claustrofobia social de um mundo que substituiu a verdade pela conformidade dos discursos. Foto: Ronaldo Gutierrez A sala é real. Mesa, cadeiras de escritório, janela — nenhuma estilização, nenhuma metáfora visual antecipada. Dois homens. Uma sindicância em curso. É nesse espaço sem ambiguidade cenográfica que Nós, os Justos, texto e direção de Kiko Rieser, instala sua armadilha. As duas mulheres en
Em Pés-Coração, o público é convidado a subir ao palco e percorrer, em fila, duas pistas circulares paralelas. A imagem projetada desse deslocamento coletivo desenha na tela o símbolo do infinito, transformando a caminhada partilhada em figura visual antes que em argumento. Há uma aposta clara nessa abertura: a experiência precede a explicação. Não se trata de ilustrar uma tese sobre deslocamento — trata-se de fazer o espectador habitá-lo com o próprio corpo, ainda que numa versão miniaturizada
Medeia é uma personagem de mais de dois mil e quatrocentos anos. Quando Eurípides a colocou em cena em 431 a.C., fez algo que distingue a tragédia que leva seu nome das demais do período: retirou o destino do centro da ação e colocou no lugar a vontade humana. Medeia não é arrastada pelos fios invisíveis do fado — ela escolhe. É essa escolha, radical e inegociável, que a torna incompatível com qualquer sistema que funcione pela domesticação da vontade em favor do cálculo. O capitalismo é apenas
Crítica · Farofa da MIT 2026 A água que testemunha Séquana–Yará: A Voz das Águas — Estelar de Teatro Foto: Cemil Batur Gökçeer Há uma pergunta que Séquana–Yará: A Voz das Águas coloca com precisão incômoda: o que os rios lembram quando as cidades esquecem? Ela não está no programa. Está na arquitetura da cena. O espetáculo da Estelar de Teatro, apresentado em processo na Farofa da MIT — no Teatro Estelar, espaço que a companhia mantém na Rua Treze de Maio desde 2018 —, é resultado de anos de pes
EspetáculoA Hora do Boi OndeÁgora Teatro — Rua Rui Barbosa 664, Bela Vista, SP Quando6 mar – 26 abr 2026 · sex–dom HoráriosSex e sáb 20h · dom 19h IngressosR$ 100 (inteira) · R$ 50 (meia) Duração / Classif.60 min · 14 anos Zé Ramalho abre o espetáculo. Vida de Gado — canção que não fala de animais, mas de homens tratados como gado — instala de imediato o duplo registro que A Hora do Boi vai sustentar por seus sessenta minutos: o boi é alegoria, e a alegoria é precisa. Não se trata de um espetácu
O tribunal como máquina dialética sobre O Céu Fora Daquela Janela, da Bendita Trupe A razão pela qual o drama de tribunal funciona tão bem no palco não é acidental — é estrutural. O julgamento e o teatro compartilham uma arquitetura que precede qualquer escolha do dramaturgo: há um espaço delimitado, um tempo suspenso da vida ordinária, uma divisão entre quem performa e quem julga, e uma decisão que precisa ser tomada ao final. Quando o teatro coloca um tribunal em cena, não está apenas escolhen
A partir de uma cena aparentemente lateral, a crítica examina como o espetáculo condensa, num gesto mínimo, o embate entre razão, guerra, contenção e experiência sensível. Por Márcio Boaro · Os Que Lutam Texto da crítica A Última Sessão de Freud, de Mark St. Germain, traduzida por Clarisse Abujamra e dirigida por Elias Andreato, chega à sua atual temporada no Teatro Sabesp Frei Caneca com 370 apresentações e mais de 170 mil espectadores acumulados desde 2022. O que sustenta essa longevidade não
Liberdade do Py para montar Liberdade, Liberdade Núcleo Py / Companhia Antropofágica Há uma inversão elegante no ponto de partida do Núcleo Py, da Companhia Antropofágica, ao revisitar Liberdade, Liberdade, de Millôr Fernandes e Flávio Rangel. O texto original, de 1965, foi montado por habitantes do Leblon que se passavam por trabalhadores. A nova versão — renomeada Mas afinal, o que é Liberdade? para, segundo o release, lidar com os “modelos de censura vigentes” — inverte o dispositivo: são tra
Os Que Lutam Foto: Heloísa Bortz Crítica · Teatro O pai morre duas vezes Em Entre Irmãos, Otávio Martins, Fernando Pavão e Marcos Damigo transformam trinta anos de ofício numa celebração sem autocomplacência EspetáculoEntre Irmãos Texto e atuaçãoOtávio Martins DireçãoMarcos Damigo Publicado emMarço 2026 Antes de qualquer palavra sobre o conflito entre os dois irmãos, antes de qualquer linha do texto de Otávio Martins ser dita, o espetáculo já tomou uma decisão formal que determina tudo o que vem
Os que Lutam Crítica de teatro · São Paulo Crítica · Solo cênico Tuca Andrada convoca Torquato Neto contra a acomodação do presente Let’s Play That ou Vamos Brincar Daquilo · 2026 Foto: Matheus José Maria Em Let’s Play That ou Vamos Brincar Daquilo, Tuca Andrada não faz de Torquato Neto um santo pop da contracultura nem um nome célebre a ser reverenciado em cena. Faz algo mais difícil e mais justo: recoloca sua obra e sua vida no terreno do conflito. Não para reconstruir uma biografia, mas para
Crítica · MITsp 2026 · Schaubühne Berlin A violência e suas versões: a dramaturgia do ponto de vista Como a adaptação teatral de História da Violência transforma um episódio traumático em investigação sobre narrativa, classe e percepção social História da Violência · Édouard Louis · Dir. Thomas Ostermeier · Schaubühne Berlin · Teatro Liberdade, São Paulo A adaptação teatral de História da Violência, de Édouard Louis, apresentada na programação da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo em um
Os procedimentos de cena do Oficina e a voz que se anuncia: Contus d’Fadas pra Kabezas Dialetykas Teatro Oficina · Direção: Fabiana Serroni · Kafka em engrenagem cênica Existe um conjunto de procedimentos de cena no Teatro Oficina. Não é um conjunto de regras escritas — é algo que está nas paredes, no palco inclinado que força o corpo a um desequilíbrio permanente, na passarela que corta a plateia e dissolve a fronteira entre quem age e quem assiste, nas escadas que sobem para fora do campo visu
O estilhaçamento da nostalgia: do mito infantil à máquina de poder do agronegócio Em 1992, na Igreja Santa Ifigênia, eu assisti ao primeiro espetáculo do Teatro da Vertigem. O Paraíso Perdido me causou um assombro que ainda carrego, mesmo passadas mais de três décadas, como régua estética: um modo de reconhecer quando uma obra não está ali para agradar, e sim para deslocar. Ao entrar na arena de rodeio montada no Espaço Cultural Elza Soares para ver Agropeça, percebo que a vitalidade do grupo co
A Doce Arquitetura do Delírio Quando assisto a um espetáculo que trata sobre o que, para meus olhos, aparenta ser sofrimento psíquico, logo penso que não tenho formação em psicologia, nem sou psicoterapeuta; então não me cabe dar nome clínico ao que vejo. Escrevo sobre teatro porque vivo nessas águas há anos. No baque das ondas contra o meu batel, o marinheiro se faz. Não há nada de preciso nelas — e, mesmo assim, sigo: para mim, é sempre preciso. Posto isso, escrevo sobre o espetáculo CHOQUE! P
Em Projeto Wislawa, escrito e dirigido por Cesar Ribeiro, o palco se apresenta como construção desde o primeiro minuto. As atrizes se anunciam com seus nomes. Ao fundo, durante toda a apresentação, luz e som ficam visíveis: os operadores trabalham à vista, e o diretor permanece centralizado entre eles — não "apresentados" como personagens, mas ali, em sua função, de forma clara. Não é detalhe. Muda a qualidade do olhar. O que se vê não pede ilusão; pede leitura. Essa decisão atravessa todo o esp
Em Asas de Pano, o conflito doméstico não é tratado como “tema” — é tratado como dispositivo de pressão. A peça parte de uma situação reconhecível (uma reorganização familiar diante da autonomia de uma filha) para produzir algo mais raro: um mecanismo em que forma e conteúdo se tornam inseparáveis. O que se desestabiliza em cena não é apenas uma relação: é um sistema inteiro de vida, mantido em pé por controle, silêncio e manutenção. A decisão formal mais potente é transformar a memória em ação.
A Escuta Como Gesto Dramatúrgico: SOMOS PERIFERIA Fotos: Max Di Giosia / Circo Teatro Palombar Somos Periferia, do Circo Teatro Palombar, transforma circo, música e poesia slam em um manifesto cênico feito por quem vive o território. O Palombar tem um trabalho consolidado de Circo Teatro, mas para este espetáculo entendeu que era o momento de deixar o circo falar por si — o caminho era ouvir aqueles jovens e traduzi-los na linguagem circense. O Palombar, coletivo nascido e atuante na Cidade Tira
Há espetáculos que se anunciam como “históricos” e, no fundo, apenas vestem o passado com figurino de época; e há outros que usam o passado como máquina de desnaturalização do presente. Entre a Cruz e os Canibais, de Marcos Damigo, pertence à segunda linhagem: a do teatro que decide não “recontar” a história, mas mexer na engrenagem das versões oficiais — sobretudo quando essas versões ainda operam como cimento simbólico de uma cidade e de uma classe dirigente. O espetáculo se inscreve, ao mesmo
Aos 7 anos, Moira Braga foi diagnosticada com Stargardt, uma doença rara e hereditária recessiva que a levaria à perda progressiva da visão. Para que ela se manifeste, é preciso herdar do pai e da mãe cópias alteradas do mesmo gene — ainda que ninguém da família apresente a doença. Moira e sua irmã mais nova receberam essa herança silenciosa, inscrita no corpo sem aviso prévio. É a partir dessa descoberta que a artista constrói Hereditária, sua primeira criação que tematiza diretamente a deficiê